sábado, 21 de março de 2009

REVÓLVER DE BRINQUEDO

Eu estava em começo de carreira e topava toda e qualquer aventura no rádio.

Teve um jogo em Batatais, interior de São Paulo, e a gloriosa Rádio Clube de Americana foi transmitir. Fomos transmitir Batatais x Vasco da Gama, o Vasquinho de Americana.

Era um jogo da quarta divisão paulista. O ano, sem precisão, devia ser 1971 ou 1972.

Paramos em um restaurante de Batatais e sentimos que o clima não estava muito propício para os "visitantes".

O garçom viu que a gente era "de fora" e já mandou a pérola: "o Batatais não perde aqui hoje, de jeito nenhum". Perguntamos por que, e ele emendou: "o juizão dormiu aqui e já está no papo".

Almoçamos bem, apesar do marrento garçom, e fomos para o estádio do Batatais.

Abrimos a transmissão, começou o jogo e a Clube mandou ver.

A torcida da casa, bem à nossa frente, estava pilhada, alvoroçada, cheia de gás. Gritava alto, cantava, xingava a arbitragem à cada marcação, enfim, tudo dentro do esquema de pressionar as visitas, mesmo sabendo que o juizão já estava no papo.

Ainda no primeiro tempo o Vasquinho, o nosso time, fez 1 a 0. E de pênalti. E duvidoso ainda.

Eu, o narrador, gritei o gol da equipe de Americana a plenos pulmões, em meio ao silêncio da galera da casa bem à minha frente. Quando dei por conta, todas as carinhas dos torcedores estavam voltadas para a nossa cabine e para o locutor que gritava o gol.

Senti que a coisa não estava tão legal assim para a nossa equipe Clube.

Passaram-se uns quinze minutos e lá vem o segundo gol do Vasco. Dois a zero.

Me esgoelei no gol do Vasco. Dois a zero, fora de casa, é coisa para alta vibração.

Mas aí é que o bicho começou a pegar pro nosso lado.

Nossos fios, que desciam da cabine para o gramado, começaram a ser puxados, balançados, quase arrancados. Nossa transmissão começava a correr riscos.

Meu comentarista, Geraldo Pinhanelli, uma lenda viva do rádio americanense, que era também diretor da emissora, estrilou com os caras e disse algumas dúzias de palavrões.

Foi o que faltava.

Todos se voltaram para a cabine e as ameaças eram as mais assustadoras possíveis. Não fossem as ofensas verbais, objetos vinham em nossa direção ( copos, sapatos, radinhos de pilha, pedaços de pedra e etc ). A coisa esquentou.

Procurei me manter firme e segui narrando o jogo, me esquivando de tudo o que era atirado à cabine.

De repente vi o comentarista e o operador de áudio sairem correndo, me deixando sozinho.
Olho para baixo e vejo um cidadão subindo a escadaria, com um "revólver na mäo".

Prestei atenção e observei que ele tinha alguma deficiência física nas pernas, pois tinha enorme dificuldade em ganhar os degraus. Vi que ele demoraria até chegar à cabine, mas a bala do revólver chegaria rapidinho. Evidentemente.

Ato contínuo, dei no pé. Abandonei o microfone, saltei uma mureta ao lado e fui me juntar aos companheiros de equipe, cem metros dali.

Polícia interveio, serenaram-se os animos da galera e fomos convidados a voltar para a transmissão.

Voltamos, seguimos a jornada, o jogo acabou empatado em dois a dois (felizmente).

No final, diretores do Batatais pediram desculpas a todos nós e contaram um segredinho sobre o cidadão que empunhava a arma: "" O rapaz sofria de desequilíbrio mental, era muito conhecido por todos, principalmente por aprontar no estádio, e sempre com aquele REVÓLVER DE BRINQUEDO"".

E depois ficamos sabendo que a diretoria do Batatais queria pegar o juiz, por não ter cumprido o "estabelecido".

5 comentários:

  1. Jota
    Seria engraçado se fosse apenas mais uma história do passado, porem pelo que ouço dizer isso ainda acontece nos dias atuais em plena epoca de futebol profissional. É verdade que na Vila Belmiro por exemplo tem equipe de TV que não envia profissionais de medo da violência ? fazendo transmissões via tubo?

    Um abraço

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  2. Roberto, isto continua acontecendo sim em alguns estádios. E é verdade que a Globo e o Sportv não mandam locutores e comentaristas à Vila Belmiro.
    abraço e bom domingo!!!

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  3. Jota, simplesmente fantástico.
    Parabéns, que história bacana
    grande abraço.

    Gustavo Antoniassi

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  4. Boa Jota,

    Vc foi novamente preciso na descrição da história... só quem já passou por coisa parecida pode avaliar! Eu, Maurício Vargas e Roger Willians, passamos péssimos momentos no Moisés em um Ponte x Barueri... se agora é assim... pois, vamos crer que o ser humano evoluiu (rsrsrsrss).... imagino como não foi essa passagem em Batatais, há muito tempo...
    No sentido inverso da "evolução" citada acima... hoje pode se esperar um "revolvinho de aço, com balas de verdade...." Deus nos livre!!!"

    Forte abraço

    PAULOFILÉ

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